__Apresentação
     
Artigos__
 
A Revista Todavia, como podem observar, ganhou nova cara. Esta mudança marca a segunda série, que estamos inaugurando com este número. O nome também sofreu uma pequena alteração: acrescentamos, após uma barra, Revista de Humanidades. Essas novidades indicam mudanças mais profundas que explicaremos mais abaixo. Gostaríamos de salientar em primeiro lugar, no entanto, o que permaneceu, porque é isso que justifica a continuidade.
Quando planejamos lançar a revista em 2009, nossos objetivos centrais eram de dois tipos: por um lado, propiciar um espaço de debate para novas ideias, vozes e trabalhos de graduandos e graduandas dos cursos de Ciências Sociais, Sociologia, Ciência Política e Antropologia; por outro, fornecer aos e às discentes do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul a oportunidade de aprenderem como se gerencia uma revista científica. Para que a experiência fosse a mais produtiva possível adotamos parâmetros semelhantes aos de qualquer bom periódico nessas áreas. Um incentivo importante foi a crescente pressão por publicação e os poucos espaços acessíveis a pesquisadores ainda em formação.
Esses objetivos continuam pautando nossa dedicação a esse projeto. Consideramos que os números anteriores evidenciam os esforços nessa direção e é com orgulho que olhamos para eles no nosso banco de dados. Aqueles que integraram a equipe o fizeram por escolha própria, conscientes da importância das suas tarefas para seu aprendizado e para a constituição de um espaço de divulgação de conhecimentos que muitas vezes não são aproveitados por serem oriundos da graduação.
Como toda experiência coletiva que luta contra as adversidades da falta de verbas, ausência de corpo fixo de profissionais ou funcionários e parca inserção institucional, tivemos nossos percalços. Acrescente-se que o trabalho era desgastante, tomava muito tempo dos envolvidos e geralmente implicava sobrecarga de funções para que tudo fosse cumprido a tempo. Muito debatemos o próprio papel da revista e, como era de se esperar, mudanças aconteceram, deliberadamente ou pelo acaso: outros professores – além do tutor do PET – passaram a auxiliar, trazendo experiências de trabalho de outras revistas; os processos passaram a ser melhor documentados, foram criadas cartilhas e tutoriais para amenizar as perdas com a alta rotatividade de pessoal; tarefas foram divididas em grupos com funções bem definidas; foi criado um banco de pareceristas, o que agilizou muito o trabalho do grupo responsável; novas ações para divulgação aumentaram o número de submissões além do esperado; a criação de um espaço para trabalhos artísticos (contos, fotos, poesias) fez com que a revista se tornasse muito mais plural e dinâmica. 
Porém, duas mudanças ainda não mencionadas se destacam. A primeira foi a parceria realizada com o PET Conexões de Saberes – Ciências Humanas, formado por bolsistas de diversos cursos. Nós dividíamos o mesmo espaço físico e já realizávamos diversas atividades em conjunto. Em 2015 surgiu a proposta de unir esforços para garantir a continuidade da Todavia: agora são dois grupos cooperando para mantê-la em funcionamento. Essa parceria ao mesmo tempo decorreu e propiciou de um debate sobre o perfil das publicações: decidimos que era o momento de abrir para estudantes de outros cursos. Essa foi a nossa segunda grande mudança: expandir os limites da revista. O critério deixou de ser o curso de origem e passou a ser o tema do trabalho submetido. Tornamo-nos, assim, uma revista de Humanidades. 
Se hoje a revista amadureceu e muitas barreiras foram vencidas é por que sempre houve quem a mantivesse. Nosso muito obrigado a todos que fizeram e fazem a Todavia. É com muita alegria que apresentamos a nova Todavia – Revista de Humanidades, que seja a primeira edição de muitas outras. Neste primeiro número da nova série contamos poemas, artigos, resenhas, ensaios textuais  e um ensaio etnofotográfico, produzidos por estudantes de diferentes áreas e instituições e sobre as mais diversas temáticas.
O primeiro artigo, Acumulação por Expropriação: o sistema da dívida e a estrutura social brasileira, de autoria de Pedro Felipe Narciso e André da Silva Nectoux, convida o leitor a compreender a relação entre dívida pública e acumulação por expropriação, que se configura num importante mecanismo de aprofundamento das desigualdades sociais no país. Em seguida, transitamos para o artigo de Paulo Henrique Ribeiro Neto, “Educação e Relações Internacionais: Diálogos Possíveis”, que chama a atenção para o significado da educação para a constelação das relações internacionais. Em sua discussão, o autor aponta para as consequências de se negligenciar essa dimensão da vida social nesse nível macro, e indica um conjunto de possibilidades que se abrem para essa área de investigação ao se considerar o papel que a educação, sobretudo pela via da construção de discursos intelectuais, tem desempenhado na configuração das relações de poder.
O terceiro artigo tem como título “Expedição a Sítios Arqueológicos e Localidades Ameríndias: Trajetórias e Mobilidades no Litoral Norte Do Rio Grande Do Sul”, e foi escrito por Bruno Guilhermano Fernandes, e é a apresentação de um trabalho etnográfico realizado no ano de 2015, tendo como foco a problematização do significado dessa experiência de contato com saberes não-acadêmicos para o grupo que participou dessa atividade de pesquisa de campo. Em seguida, continuamos a reflexão sobre o significado da pesquisa de campo a partir de outro, olhar, isto é, o do olhar para as formas de construção de conhecimento que se constituíram em outro momento histórico. No artigo “Henri Hubert: Sua Viagem ao Redor do Mundo (1902-1903) e a Construção da Sala de Marte”, Fernando Lajus convida a um instigante olhar para o processo de formação do universo intelectual de Henri Hubert, importante personagem da Escola Durkheimiana, utilizando, para isso, o conceito de Bourdieu sobre os ritos de instituição.
No artigo de Arthur Ramalho Freire, “O Corpo nos Ritos de Passagem: uma Análise do Rito Juramento ao Sol no Filme Um Homem Chamado Cavalo”, a temática do corpo surge como categoria central para compreensão dos processos retratados no filme analisado, que é inserido no contexto discussão sobre significado dos rituais na produção da vida coletiva. Na sequência, temos artigo, de autoria de Bruno Monteiro Duarte, o poder judiciário é apresentado como uma forma de acesso à política que é mobilizada em contextos nos quais não há representação legislativa suficiente. Ao longo do texto “Os Grupos Sociais Dentro de uma Política Judicializada: uma Busca por Direitos”, o autor discute a estratégia de mobilização de dois grupos antagônicos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), trazendo uma perspectiva muito interessante para o debate em torno do que vem sendo chamado de judicialização da política.
O texto é “Tempo, Cultura e o Momento Pós-Colonial”, de Gabriel Gonzaga, que propõe uma tematização do debate pós-colonial a partir de uma categoria específica: o tempo. Em sua interessante análise, o autor propõe revisitar temas centrais do universo das ciências sociais, como memória e identidade, e propõe uma reflexão sobre as consequências disso.
Ainda que seguindo por um percurso diverso, o convite à reflexão crítica tem continuidade com o artigo de Stéfane Cryslaine Alves Guimarães, “Say Yes: uma etnografia sobre o coaching”, no qual a autora nos permite adentrar nos muitos processos implicados no processo de coaching, apontando para uma semelhança com rituais de natureza religiosa.
A Resenha deste número é sobre o livro O Espírito das Roupas da socióloga brasileira Gilda de Mello e Souza, que é a publicação, em 1987, de sua tese de doutorado defendida em 1950. Na resenha, o autor explora o contexto de produção da obra e o sentido de seu conteúdo para a área.
O ensaio “Batucada: Considerações Sobre Corpos, Pessoa e Nudez em Manifestações Artísticas”, é assinado Gabriela Lages Gonçalves, provoca o leitor com uma profunda reflexão sobre a tensão entre público e intimidade e acrescenta a isso outras camadas de problematização, sobre identidade de gênero.
Em seguida, adentramos o universo do ensaio etnofotográfico, com o trabalho “Entre Tramas da Salenda: Alguns Formatos do Tais Díli Timor-Leste”, de Andreza Carvalho Ferreira, que versa sobre a produção da salenda e mostra-nos, pelo texto e pelas imagens, as experiências das trabalhadoras que compartilham suas vidas nesse processo.
Como linhas que alinhavam com arte esses diversos trabalhos, temos, espalhadas entre as sessões as poesias de G. de Farias, “Aborto”, “Cigarros” e “Eutanásia”, e o desenho de Maria Clara Schorn, “Linhas e nós, o tecer da vida”.

Boa leitura!

Os editores.
   
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    Porto Alegre, 31 de Julho de 2016.    
   
Ênio Passiani – Editor
Raquel Weiss – Editora
Caleb Faria Alves – Ex-editor e membro da comissão editorial
Iara Passos – Editora Gerente


Revista Todavia
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